acho interessante - quase tanto como irritante - a maneira como os cheiros e [cada vez mais] os sons despertam memórias e em menos de um segundo me transportam para outro lugar.
é fascinante como um cheiro me coloca imagens na mente e mais fascinante ainda é conseguir vê-las nitidamente, como se estivessem à minha frente, o que obviamente não estão.
com a música, ou sons, não me ocorrem imagens, necessariamente; é uma sensação que tem vindo a tornar-se mais forte nos últimos tempos e a primeira vez que me provocou uma reacção psicológica semelhante à do cheiro foi há 3 anos e meio. estive meses sem ouvir uma música. hoje ouço-a bem, mas leva-me sempre a outros sítios, por mais distraída que esteja a ouvi-la.
não consigo ultrapassar o facto de não conseguir controlar minimamente os efeitos físicos que o cheiro e o som me provocam. calor a espalhar-se pelo peito, sinto-o também nos braços; coração acelerado, a mais básica e comum das reacções.
mentalizarmo-nos e darmos menos importância a memórias e assuntos que são despertados - ou intensificados (durante os primeiros tempos, estão sempre na nossa mente, demoram tempo a submergir) - não resulta, como já tive oportunidade de experimentar. mesmo quando já passou tempo suficiente para colocar de lado essas memórias, um cheiro inesperado, ou mesmo um encontro, trazem tudo de novo à superfície e tudo o que andámos a dizer a nós próprios durante tanto tempo torna-se então irrelevante, patético até.
o nosso corpo reage a estímulos exteriores, o cérebro manda em tudo. por mais que tentemos, os instintos mais primitivos, mais rudimentares ganham sempre a corrida, apanham-nos sempre desprevenidos, o calor espalha-se, o coração acelera.
não podemos pôr uma mola no nariz e mesmo que não ouçamos música, há sons característicos de tempos específicos. o cérebro cria de imediato memórias associadas a essas sensações e o pior de tudo é que as guarda na gaveta da memória de longa duração. a nossa vontade pouco importa, o cérebro quer assim e assim o faz.
é importante para o nosso conhecimento e aprendizagem que estas associações sejam feitas, mas há memórias que às vezes queremos guardar de imediato no canto mais recôndito da nossa memória, bem enterradinhas, já que esquecê-las de vez é impossível. claro que sabe bem ouvir aquela música tão antiga que traz boas recordações, aquele cheiro - seja de comida, de um quarto, de objectos de infância - que nos faz lembrar uma época já longe; embora seja uma pessoa nostálgica de mais (e que não sei lidar muito bem com isso), quem não gosta de escapar durante uns momentos para uma outra altura, onde nos lembramos tão bem de estar felizes?
03/04/10
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- riita
- sometimes i think i'd float away if this sadness didn't weigh me down
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